Obituário – Maria Rita Sá Mendes Leal (21/09/1921 – 18/04/2019)

13 Mai, 2019
Obituário – Maria Rita Sá Mendes Leal (21/09/1921 – 18/04/2019)

Obituário

Maria Rita Sá Mendes Leal 

(21/09/1921 – 18/04/2019)

A Professora Maria Rita Mendes Leal deixou-nos no passado dia 18 de abril com a provecta idade de 97 anos.

Ela foi membro titular didacta da nossa Sociedade Portuguesa de Grupanálise e Psicoterapia de Grupo (SPGPAG) e desde 2015, seu Membro Honorário.

Ela foi também uma proeminente professora universitária e uma importante pesquisadora científica sobre desenvolvimento psicológico em crianças e bebés e sobre Educação na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade clássica de Lisboa, desde 1980.

No ano de 1960, ela iniciou seu treinamento pessoal grupanalítico com o Prof. Dr. Eduardo Luís Cortesão, introdutor da Grupanálise em Portugal, em1956.

Em 1961, ela foi aceite como membro pleno da Sociedade Britânica de Psicologia.

Em 1964, ela tornou-se membro efetivo da então Sociedade Portuguesa de Grupanálise (S.P.G.).

Durante esse período, ela foi a Londres e visitou a Tavistock Clinic através de um convite pessoal do Prof. John Bowlby, o qual expressou suas afinidades com sua proposta de intervenção psicoterapêutica: a psicoterapia “relacionamento dialógico” praticada nas salas de consulta do “Centro de Paralisia Cerebral Calouste Gulbenkian” (Lisboa).

Entretanto ela desenvolveu um conceito analítico de grupo designado de a “matriz relacional interna“, muito valorizado por M. Foulkes, E. L. Cortesão e seus seguidores. Esta conceptualização foi apresentada na Revista “Group Analytic Panel and Correspondence” (versão anterior da Revista “Group Analysis”) em 1968

Nos anos sessenta com Michael Foulkes (fundador da análise de grupo), Anne Schutzenberger e Eduardo Luís cortesão em Londres, Nice onde ela e Eduardo Luís deram várias conferências.

Também pertence a este período, a sua apresentação sobre o conceito de “intercâmbio mutuamente contingente” (muito parecido com o conceito de “espelhamento” de Malcolm Pines).

Delegados no II Simpósio da GAS (Esquerda para a Direita): D.W. Abse, Elisabeth Foulkes, Ebbe Linnemann, Malcom Pines, Guilherme Ferreira, Michael Foulkes, João França de Sousa, F.R.C. Casson, Maria Rita Mendes Leal, A. Dutra, K. Nuttall, Patrick B. de Maré, A.C.R. Skynner, Harold Kaye, and Jim Home.

Entretanto, ela esteve muito envolvida em diversos projetos da Sociedade de Grupanálise Britânica (GAS).

Em 1976, ela foi convidada para integrar o Comité Diretivo da Sociedade de Grupanálise Britânica (Londres).

Em 1981 ela recebeu o Prémio Foulkes.

Em Roma, com Elizabeth Foulkes (1981).

Em 1983, Malcolm Pines publicou um de seus trabalhos: “Why Group Analysis work” no seu livro: “The Evolution of Group Analysis”.

Em 1992, ela iniciou uma colaboração com o Conselho Editorial da Revista da Sociedade Portuguesa de Grupanálise, intitulada: “Grupanálise

Em 1993, ela publicou um livro coeditado com a Sociedade Portuguesa de Grupanálise: “Grupanálise: um percurso, 1963-93“.

Ela pertenceu ao Painel de Consultores Internacionais do “International Journal of Group-Analytic Psychotherapy” (mais tarde Revista: “Group Analysis”) durante mais de vinte anos.

Entre 1995 e 1997, ela foi eleita Presidente da Sociedade Portuguesa de Grupanálise (SPG).

Em 2015, ela tornou-se Membro Honorário da SPGPAG, tendo participando nos seus eventos científicos e de supervisão até ao ano passado – 2018.

Algumas Notas Biográficas:

Ela nasceu em Roma em 1921. Era a filha mais nova de duas raparigas de Augusto Mendes leal e de Maria de Barros e Sá Mendes leal. Até aos doze anos de idade, a sua Família não ficava mais do que dois anos em resultado das obrigações profissionais de seu Pai o qual pertencia à Carreira Diplomática do Ministério dos Negócios Estrangeiros Português. Assim eles viveram, em Roma, por duas ocasiões (1921-1923 e 1925-1928), em Washington: D.C. (EUA) (1923-24 e 1928-1930), na França, em Inglaterra e na Suíça. Durante sua estada em Washington: DC (EUA), ela esteve inscrita na Montessori Basic School (1928-30). Depois, quando voltou para Portugal, ela frequentou a Escola Alemã em Palhavã (Lisboa) até 1938-1939.

No ano seguinte (1940), ela iniciou sua vida profissional, como educadora infantil, na Queen Elizabeth School, que seguia a orientação Montessori, a orientação da Miss Lester. Enquanto estudante-trabalhadora, ela ingressou na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa tendo obtido o seu diploma em Ciências Históricas e Filosóficas, enquanto frequentava estudos graduados em Pedagogia e Administração da Educação (1940-45).

Em 1950/51, após ter recuperado de uma doença reumatismal na sua coluna vertebral, ela trabalhou para vários editores, principalmente como tradutora e editora de textos (1951-55).

Entre 1952 e 1957, ela foi convidada para ser Professora do “Instituto de Serviço Social“, uma escola de formação privada para assistentes familiares e de trabalho social e em 1954, é convidada a liderar o Departamento de Educação e Treinamento da “Casa Pia de Lisboa“.

Enquanto isso, ela termina sua tese de licenciatura em Ciências Históricas e Filosóficas focando conceitos modernos da Psicologia Dinâmica e integrando-as no pensamento da Alta Idade Média: “A unidade psicológica da pessoa humana segundo Santo Agostinho” (1960), onde ela fez ênfase no questionamento sobre a base essencial da relação interpessoal.

Ela é convidada para se tornar uma professora segunda assistente da Faculdade de Letras (Universidade Clássica de Lisboa) para reger a Cadeira de Antropologia Filosófica no Departamento de Filosofia e também no Departamento de Pedagogia e Administração da Educação.

Entre 1958 e 1963, ela desenvolve um trabalho de caso (sob a influência de Carl Rogers) com 20 adolescentes provenientes de diversas escolas secundárias, em regime de substituição familiar e sob orientação profissional e social, com os quais permaneceu em contato pessoal por muito tempo.

Entre 1958 e 1973, ela tornou-se na Diretora do Departamento de Educação e Aprendizagem numa outra instituição de trabalho social muito antiga: “Casas de Asilo da Infância Desvalida“.

Entretanto é também convidada para Professora Assistente na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa para lecionar História da Educação no Departamento de Ciências Pedagógicas até 1971.

Após uma primeira recusa sobre o seu projeto de dissertação doutoral focando o desenvolvimento infantil, em 1973, ela vai participou nos programas de mestrado e doutorando do Instituto de Educação da Universidade de Londres, como aluna regular, autorizada a manter a investigação em Lisboa. Dois anos depois, ela finaliza o seu mestrado em Educação Comparada no mesmo Instituto de Educação (Londres) e enquanto se prepara para as suas provas de doutoramento, ela vai lecionando o tema das “Técnicas em Psicoterapia” no “Instituto de Psicologia Aplicada (ISPA)” de Lisboa.

Nos finais de 1975, sob orientação da Professora Mildred Marshal, colaboradora de Charlotte Buehler, ela é aprovada com distinção para o Grau de Doutor e muito elogiada pelo júri que faz uma recomendação para rápida publicação do seu trabalho de pesquisa: “Socialization Processes in the young child” que se debruça sobre o desenvolvimento inicial das capacidades de relacionamento social nas Crianças e como a Mente se vai estruturando a partir do nível pré-simbólico. A primeira tradução em Português foi realizada em 1985.

Durante o período da Revolução em Portugal (1974/75), ela aceitou um convite para se tornar docente convidada no “Instituto Sedes Sapientiae” da Pontifícia Universidade Católica (São Paulo / Rio de Janeiro) para ensinar Psicologia Dinâmica e supervisionar Psicoterapias para Crianças e Adultos.

Em 1980, ela regressa a Portugal e é convidada a assumir a coordenação científica e pedagógica da Psicologia Clínica na Universidade Clássica de Lisboa. Lá, ela correu vários projetos científicos: “Consulta Psicológica da Criança e do Adolescente“, “Pesquisa em Psicologia Clínica” e vários “Estudos de Casos“. Em 1981, ela é eleita Presidente do Conselho Científico da Faculdade de Psicologia e Ciências Educacionais e acede ao mais alto grau da docência (Professora Catedrática).

Em 1991, ela torna-se Professora Emérita, permanecendo vinculada à pesquisa científica e á supervisão clínica.

Ela escreveu vários capítulos e livros sobre Desenvolvimento Psicológico de Crianças e Adolescentes e de Psicoterapia Analítica de Grupo.

O fundamental é a busca do que é o relacionamento com o outro, a busca de encontrar-se a si próprio” (Maria Rita Mendes Leal)

Lisboa, 10 de Maio de 2019

Mário David e Isaura Manso Neto

PS: Para aceder à sua Obra a Professora Maria Rita deixou à nossa Sociedade um link de acesso eletrónico: mritaleal.academia.edu