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Meet Eduardo Luis Cortesão at the 14th GASI Symposium on 26.6.2014 

 Matriz

Foulkes definia matriz como:

é a teia hipotética de comunicação e relação num dado grupo. É o terreno partilhado em conjunto que, em última instância determina o sentido e a significação de todos os acontecimentos, e no qual se integram todas as comunicações e interpretações, verbais e não verbais.

Mais tarde, Cortesão definia matriz grupanalítica como:

é a rede específica de comunicação, relação, e elaboração, a qual, pela integração do padrão grupanalítico, fomenta a evolução do processo grupanalítico adentro das dimensões teóricas e técnicas que o enformam.

Como se infere é um processo dinâmico que simultaneamente resulta e condiciona as interacções e inter-relacionamentos entre os seus vários elementos e que pode levar à formação e modificação da matriz relacional interna (MRI) de cada um.

Contudo para uma melhor compreensão da importância do grupo e da matriz no processo terapêutico grupanalítico, basta lembrar-nos que desde que nascemos, até que morremos, vivemos praticamente sempre inseridos em grupos. Seja o grupo familiar, seja o grupo escolar, seja o grupo de amigos, seja o desportivo, seja o profissional, seja outro qualquer, e que, qualquer um destes grupos, tem uma matriz específica que influencia quem nela está inserido.

Também facilmente aceitamos que de todos estes grupos, o mais importante é o da família, já que, é o nosso primeiro grupo e aquele que mais influência tem no nosso processo de desenvolvimento, quer motor quer psico-afectivo, como consequência da matriz familiar aí existente.

Entendemos por processo de desenvolvimento a aquisição de estruturas e formas dinâmicas de pensar, sentir e de relacionamento onde estão inseridos mecanismos de defesa, conflitos, desejos, medos, quer nos sejam conscientes ou inconscientes. É com esta forma fundamentalmente adquirida de nos relacionarmos, e que intitulamos de MRI (que pode ser mais ou menos adequada ou desadequada ao meio em que vivemos), que iremos actuar no grupo, isto é, na sua dinâmica de relação, comunicação e elaboração que constitui a sua matriz grupal, e onde o grupanalisando através de processos de regressão, transferência e de consequentes interpretações grupanalíticas, desencadeia o seu processo de transformação grupanalítica.

Assim de uma forma sucinta, poderemos dizer que a grupanálise tem a tarefa de recriar estas pessoas (passe a pretensão), mas agora de uma forma mais adequada, harmoniosa e não geradora de sofrimento (isto é normal), com a criação/geração de uma nova forma de comunicar e de se relacionar, através da matriz grupanalítica que o grupo é capaz de fomentar no processo terapêutico grupanalítico.

Padrão

A noção de Padrão foi conceptualizada por E. Cortesão (1967 que discorreu sobre as origens semânticas e as ambiguidades de significado da palavra padrão. A conceptualização de E. Cortesão foi geradora de uma polémica com Foulkes devido ao significado restritivo de imprinting atribuído à palavra por este último.

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Cortesão

Encontro Lisboa-Miguel Bombarda

Encontro Lisboa-Miguel Bombarda

E. Cortesão assim define Padrão:

 é a natureza de atitudes específicas que o grupanalista transmite e sustem na matriz grupanalítica com uma função interpretativa que fomenta e desenvolve o processo grupanalítico.

Ao falarmos em Padrão estamos referindo-nos a um conjunto de características e competências utilizadas pelo grupanalista que segundo E. Cortesão será entendida à maneira de um catalisador que permite a instalação da terapia e fomenta o seu desenvolvimento. Tem teoricamente três vértices: natureza, função e propósito.

1. Natureza- relaciona-se com as características do grupanalista: como pessoa- personalidade e carácter, representação internalizada de matrizes familiar e sociocultural, treino analítico pessoal (maneira como internalizou e se identificou com o seu grupanalista), capacidade de empatia, de estar em grupo e estabelecer relações de autenticidade, de verdade e de honestidade.

Como transmissor – capacidade que se relaciona com o nível de sua formação profissional: Curso de formação grupanalítica, supervisão, contemporaneidade da informação científica.

2. Função – relaciona-se com o estabelecimento de regras e atitudes:

a) Regras:

– selecção de pacientes de modo a ser possível o estabelecimento do processo grupanalítico.

– estabelecimento de um contrato terapêutico que contemple exigências de sigilo, de proibição de contactos extra grupo entre os pacientes ,  de ausência de contactos com os familiares do paciente pelo grupanalista.

– assegurar  um espaço para a realização das sessões terapêuticas bem como assegurar a pontualidade  e a frequência das sessões pelo grupanalista.

– privilegiar a comunicação verbal não se permitindo a passagem ao acto e o estabelecimento de ganhos secundários.

– propiciar o estabelecimento da “floatting discussion”.

b) Atitudes:

– o grupanalista terá intervenções de clarificação, de reformulação e de confrontação;

– deverá abster-se de falar de si próprio e de ter atitudes corriqueiras;

– fará interpretações que irão de um   nível genético evolutivo  ao nível da transferência e da transferência comutativa;

– manter-se-à atento à compreensão do binómio transferência/contratransferência de modo a poder estabelecer uma relação empática que se possa constituir como factor terapêutico.

3. Propósito – exprime-se pela indução e manutenção (na matriz grupanalítica) do processo grupanalítico através da promoção:

a)  do insight racional e emocional

b) de intervenções que produzam modificações do self.

c) do desenvolvimento da estruturação diferenciada e do funcionamento do self que poderá aceder a uma autonomia relativa e a uma dependência coerente e natural.

Transferência

Apesar da opinião de Foulkes acerca desta matéria ter sido um tanto errática, já em 1975 ele escreveu que a «neurose de transferência (no grupo) […] contém a chave […] da neurose do paciente num paralelo exacto com a neurose de transferência da situação diádica em psicanálise».(Foulkes, 1975).

Cortesão defendia, e cito, que «o conceito de Neurose de transferência – porquanto originado num enquadramento diferente – existe, é significativo e natural, nesta nova situação terapêutica (o grupo) […]. É diferente na forma e na estrutura, mas pouco diverge no conteúdo e na função. É diferente, mas não é contraditório». (Cortesão, 1989).

A conceptualização e operacionalização da neurose de transferência em grupo continuou a ser desenvolvida pelos grupanalistas portugueses. Faz-me sentido, a propósito, destacar a contribuição de Maria Rita Mendes Leal (1970) com o seu conceito de «Matriz Interpessoal Interna» ou «Matriz Pessoal de Grupo». Segundo ela, cada um teria na sua mente as representações das figuras significativas do passado elaboradas a partir das vicissitudes e tramas relacionais. Esta complexa e dinâmica rede de representações de objecto e de relações de objecto conotada na sua génese com o grupo familiar nuclear vai ganhando complexidade ao longo da vida conforme as diversas matrizes relacionais grupais em que a pessoa se vai encontrando. Será como que uma «marca de água» de cada um, determinante da sua maneira de ser de estar com os outros, e isto para o melhor e para o pior.

O grupo grupanalítico proporcionará um contexto privilegiado para a encenação da matriz pessoal de grupo, activada pela regressão, de cada um dos analisandos, favorecendo uma leitura mais fina e discriminada da neurose de transferência individual relativamente às suas múltiplas linhas de força. O Grupanalista naturalmente que se manterá como alvo transferencial, embora comum, electivo e será sentido de modo diferente por cada analisando conforme a singularidade de cada um. Cabe-lhe, portanto, lidar de modo diferente com o que é diferente, preservando, no entanto, tanto quanto possível, a sua equidade empática. As vicissitudes das relações fraternais são muito exuberantemente reactualizadas no grupo, bem como as do complexo edipiano, sendo frequente que para cada analisando «per se» o grupanalista e o grupo sejam vivenciados como os outros dois vértices do triângulo. As transferências laterais estão sempre presentes tanto as genuínas como as que representam deslocamentos defensivos de movimentos secretamente dedicados ao grupanalista.

Num grupo grupanalítico, outros poderão também participar na construção desses momentos raros, a partir da autenticidade própria, ou ecoá-los genuinamente. Num grupo, os Momentos de Encontro poderão ser momentos de múltipla adequação empática, ilustrando o que costumo designar por «Caixa de Ressonância Empática» que o grupo poderá proporcionar (Dinis, 2001).

Níveis de Experiencia e Comunicação 

A comunicação num grupo de Grupanálise ou de psicoterapia grupanalítica é, obviamente, o elemento central que permite que todo o processo de análise ocorra dentro das condições teóricas e técnicas inerentes a este objectivo. Vários autores se têm debruçado especificamente sobre esta vertente mas o meu enfoque nesta curta comunicação centra-se na conceptualização de Eduardo Cortesão, introdutor da Grupanálise em Portugal, no que se refere aos níveis de Experiência e Interpretação no contexto da Grupanálise e psicoterapia grupanalítica.

Conforme refere Cortesão (1971), num grupo de psicoterapia os membros do mesmo procuram partilhar sentimentos, conflitos ou mesmo convicções, designando estes níveis de comunicação como níveis de experiência.

Estes níveis de experiência processam-se através das diversas formas de comunicação verbal e não verbal que estão sempre presentes e actuantes no grupo e é com estes níveis que se intervém globalmente na psicoterapia de grupo assim como na individual. O trabalho analítico sobre estes níveis de experiência no grupo permite clarificá-los de modo a adquirirem significados que potenciem a análise e o efeito terapêutico. Quer a dimensão do conflito surja mais no plano do intrapsíquico ou no plano do interpessoal, em ambas as situações torna-se possível a transformação progressiva das experiências que emergem no grupo em módulos mais diferenciados de comunicação verbal.

Cortesão referencia três níveis de experiência que emergem no grupo: o nível de experiência subjectiva individual, quando por exemplo um elemento do grupo relata um acontecimento ou experiência que teve no presente ou no passado, ou mesmo o conteúdo manifesto de um sonho; o nível de experiência subjectiva múltipla, quando numa cadeia de pensamentos outros membros do grupo vão também falar de experiências suas e o nível de comunicação associativa, quando um ou outro elemento do grupo comentam sobre o que disseram os outros questionando ou por exemplo dando sugestões ou informações.

A interpretação é a técnica que permite traduzir para novas e mais diferenciadas formas de comunicação e organização psicológica aquilo que é comunicado no grupo nas suas diferentes vertentes. Cortesão refere que o termo interpretar integra dois sentidos dinâmicos e duas estruturas: é activo quando introduz novos significados mais diferenciados face à comunicação anterior e é passivo quando o receptor atribui um significado à interpretação que não altera a proposição anterior ou quando o receptor não a compreende, ou eventualmente logo, ou ainda quando a proposição anterior não é entendida no seu contexto mas vai despoletar pensamentos e afectos vários no sujeito.

Níveis de Interpretação

No que respeita aos níveis de interpretação no grupo analítico Cortesão conceptualiza seis níveis. São eles os níveis de interpretação:

Genético-evolutiva – O nível de interpretação genético-evolutiva verifica-se quando a interpretação acentua a génese da personalidade, investigando a estrutura, crescimento e função do Self.

Desenvolutiva O nível de interpretação desenvolutiva ocorre quando se tenta correlacionar as diferentes fases do desenvolvimento, a inter-relação do Self com as matrizes familiar e social e o modo como o Self reage á mudança, frustração e conflitos. Segundo Cortesão, o nível genético-evolutivo correlaciona-se mais com a causalidade e o de interpretação desenvolutiva com possibilidades de significação e criatividade.

Significação e criatividade – Os níveis de interpretação de significação e de criatividade podem ocorrer quando em certas circunstâncias do decorrer da sessão analítica, são dados novos significados aquilo que é relatado e este mesmo significado pode revestir-se de uma compreensão diferente e inovadora.

Transferência

Comutativa

A interpretação, no contexto destes níveis, pode ser dirigida de diferentes formas. Assim ela pode ser dirigida:

  • ao grupo como um todo
  • para um dos elementos do grupo
  • para certos aspectos relacionais da matriz grupanalítica
  • de um elemento do grupo para outro
  • ou também para o todo do grupo

A interpretação orientada para o grupo ou para um dos seus elementos ecoará em cada um dos elementos do grupo de forma única, consoante, naquela fase, o seu nível de regressão e fixação. O objectivo de qualquer interpretação é o de ampliar e expandir a mente de cada membro do grupo e simultaneamente permitir uma maior elaboração do Self.

Perlaboração ou Working-through

Para Cortesão (Cortesão, E. L.,1989) a perlaboração é um dos elementos do processo grupanalítico, decorre lentamente mas de forma contínua. A constância e o tempo são os componentes que maior ascendente têm sobre a perlaboração. Cortesão cita Glover (Glover, 1958) quando este se refere à lentidão do processo de perlaboração, esta lentidão dá conta de que os factores que determinam este processo também actuam de forma muito gradual.

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