ANTI-GRUPO dialéctica entre criatividade e destrutividade (por Mafalda Guedes Silva)

4 Apr, 2016
ANTI-GRUPO dialéctica entre criatividade e destrutividade (por Mafalda Guedes Silva)

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Autor  

Morris Nitsun

Psicólogo e Grupanalista.

Consultor do Sistema Nacional de Saúde do Reino Unido

para os assuntos da saúde mental e psicoterapia.

Analista Didata com funções de formação de candidatos

a grupanalista no Instituto de Grupanálise – IGA.

Nasceu na Africa do Sul e emigrou para o

Reino Unido em 1986, vive na zona de Londres.

A adesão a um grupo pelo ser humano é uma experiência repleta de dificuldades e ambivalência. Existe uma tensão entre querer pertencer e estar integrado e não querer pertencer, manter a sua individualidade. Fortes sentimentos de ansiedade perante a separação e a ideia de fusão no grupo, o medo de ser atacado, a perda de identidade, impulsos competitivos e a inveja, a retirada narcísica, ou simplesmente o desejo de singularidade.

Conceito
Influências de Foulkes (potencial curativo do grupo, as forças colaborativas e criativas das pessoas quando estão em grupo) e de Bion (os aspectos mais obscuros, disruptivos e regressivos do funcionamento dos grupos. Nitsun sugere que os pressupostos básicos são fundamentalmente anti-grupos).

O conceito de anti-grupo desenvolveu-se a partir da discrepância que Morris Nitsun percepcionou entre as expectativas baseadas na literatura sobre psicoterapia de grupo e a experiência adquirida na condução de grupos grupanalíticos.

Definição

O anti grupo é um termo que descreve diferentes manifestações de ansiedade e hostilidade face ao grupo que pode minar o seu potencial construtivo e colaborativo. É um processo.
Termo amplo que descreve os aspectos destrutivos dos grupos que ameaçam a integridade do grupo e o seu desenvolvimento terapêutico. Não descreve uma ‘coisa’ estática, que ocorre em todos os grupos da mesma forma, mas sim um conjunto de atitudes e impulsos, conscientes e inconscientes, que se manifestam de forma diferente em diferentes grupos.
Todos os grupos contêm um anti-grupo, mas enquanto em alguns grupos ele é resolvido de forma relativamente fácil, noutros pode minar e destruir as fundações do grupo. Manejo bem sucedido do anti-grupo representa um ponto de viragem no desenvolvimento do grupo. Ao ajudar o grupo a conter o seu próprio anti-grupo, não só reduzimos as possibilidades de actuação das forças destrutivas, como o grupo é fortalecido, a sua sobrevivência é fortalecida e o seu potencial criativo libertado.
No contexto dos grupos de psicoterapia surge/manifesta-se: faltas, atrasos repetidos, actings out, drop-outs, bode expiatório, espelhar maligno, violência verbal.

Estádios de desenvolvimento do grupo e o anti-grupo

O estádio de desenvolvimento do grupo influencia claramente o padrão dos processos dinâmicos do grupo.
O estádio inicial é crucial na determinação da forma e futuro do desenvolvimento do anti-grupo. manifestações mais exuberantes do anti-grupo, tanto manifestas como latentes. Por exemplo, medo de exclusão, de ataque, de preconceitos hostis, falta de controlo, de vergonha pela exposição e feridas narcísicas são prováveis de ocorrer.
O estádio intermédio pode ser entendido como o estádio do controlo. As temáticas de domínio, poder e rivalidade serão as primeiras a surgir. Podem ocorrer confrontos entre os membros, desencadeando tensões e hostilidade, raiva e desafio, e esta atmosfera de conflito pode ameaçar a estabilidade d grupo. O grupo pode impregnar-se com as más associações do anti-grupo. Mesmo se no estádio inicial se tiver atingido alguma coesão e segurança, as atitudes anti-grupo vão disparar novamente neste estádio intermédio.
O estádio maduro, por definição implica a resolução ou redução das tendências destrutivas do grupo. Esta é geralmente a fase de maior confiança e intimidade. Contudo a maior abertura pode gerar ameaças à exposição e confrontação potencialmente atitudes anti-grupo. O estádio maduro também corresponde geralmente ao término do grupo. Ambivalência face ao fim do grupo pode despoletar medos de separação e desintegração do grupo redespertando angústias precoces de abandono. O grupo pode tornar-se destabilizado, tornando a separação um fardo pesado em vez de um processo coerente de elaboração.
A noção de estádios de desenvolvimento do grupo complica-se no contexto dos grupos abertos lentos, característicos da grupanálise. À medida que antigos membros saem e entram novos, pode ocorrer uma fusão dos estádios de desenvolvimento que pode influenciar a expressão do anti-grupo. O grupo aberto lento é mais atreito a maiores vicissitudes do que os grupos mais estruturados, grupos limitados no tempo, e as subsequentes incertezas e ambivalência alimentam o anti-grupo.

O anti-grupo como fenómeno desenvolvimental ≠ anti-grupo patológico

Representaria a parte do processo de grupo que está encarregue de lidar e mitigar os fenómenos destrutivos de grupo para que os processos construtivos possam prosseguir. O que sugere que o anti-grupo é uma parte natural do grupo com a função última de o apoiar e fortalecer. Aplica-se a vários níveis do grupo: o indivíduo, sub-grupo e o ‘grupo como um todo’. É uma ocorrência comum em grupos que um membro individual ou pequeno feixe de membros adopte posições contrárias ou não-conformistas, frequentemente de cariz hostil e desafiante em relação ao resto do grupo. Se as projecções negativas nestes membros forem reconhecidas e apropriadas pelo resto do grupo, tal pode ser benéfico e terapêutico para todos. O anti-grupo patológico implica uma intervenção muito focada do terapeuta e ocorre quando o anti-grupo deixa de ter uma função transformadora e geradora de criatividade.

Grupo como refúgio

Geralmente os pacientes do SNS têm uma vida com elevado stress, em especial nos centros urbanos em que impera a desvalorização, desemprego, impessoalidade, dificuldades económicas e condições habitacionais precárias. A vinda ao grupo pode ser sentida como uma “pausa merecida” em todo este stress, os pacientes vêm ao grupo para se sentirem bem, confortáveis, num ambiente acolhedor. O grupo pode ser sentido como um refúgio às dificuldades diárias em que o sentimento agradável de estar sentado confortavelmente e em segurança pode ser mais importante para o bem-estar e saúde mental do que explorar o passado e analisar as motivações inconscientes do seu comportamento. Entender o grupo como um refúgio para os pacientes pode ajudar o terapeuta a manejar o anti-grupo e a conduzir o grupo à sobrevivência no ambiente hostil dos grandes centros urbanos.

O papel do terapeuta no manejo do anti-grupo

Um terapeuta mais focado no aqui e agora e no desenvolvimento da capacidade de mentalização dos pacientes (Mentalization-based Treatment, Fonagy e Bateman), identificar e nomear os sentimentos e emoções, pode ajudar os grupos a sobreviver aos fenómenos de anti-grupo. Em especial, com grupos conduzidos no SNS onde imperam as diferenças sócio-económico-culturais e por vezes também de língua e predominam as patologias da personalidade borderline e psicótica. E existe o receio constante da dissolução do grupo por reorganizações do serviço.
A liderança dos grupos é outro factor que pode beneficiar com alterações da técnica clássica de condução de grupos analíticos. O exercício de uma liderança democrática (noção de Hoggett’s, 2008 citado Nitsun, 2015) é o mais apropriado e possível num contexto de grupo analítico.
A contenção, ou a resolução do anti-grupo, liberta os pacientes das preocupações ansiosas engendradas pelo processo destrutivo de grupo. Este processo abre caminho para a utilização da imaginação, pensamento, sentimento e de certo modo do brincar no sentido simbólico do termo. O grupo torna-se num objecto transitivo, na concepção de D. Winnicott, e observa-se uma utilização criativa do espaço do grupo.

Mafalda Guedes Silva