A Escola Portuguesa de Grupanálise desenvolveu-se inicialmente a partir dos trabalhos do Professor Eduardo Luís Cortesão, apresentando especificidades próprias e diferentes de outras perspetivas e escolas de grupanálise e psicoterapia de grupo de orientação analítica. Ao longo do tempo a Escola Portuguesa de Grupanálise tem sido enriquecida e consolidada com a contribuição dos grupanalistas portugueses, através das suas conceptualizações e experiência clínica.

Cortesão introduziu a grupanálise em Portugal desenvolvendo conceitos específicos como os de matriz grupanalítica, processo grupanalítico, padrão grupanalítico, níveis de experiência e interpretação, interpretação comutativa, ação terapêutica diferenciada, realização pelo negativo e criatividade pelo negativo, equilíbrio estético, e neurose de transferência grupal.

Estes conceitos e outros que foram sendo introduzidos vão dar corpo ao que se pode designar por Escola Portuguesa de Grupanálise, dotando-a de um cariz especificamente analítico.

Segundo Cortesão (1989) a ação terapêutica diferenciada é um esquema proposto de atitude e ação terapêutica constituído por vários princípios de atuação tendo sempre em atenção a pessoa e a doença, a pessoa e a matriz familiar, a pessoa e a matriz comunitária e a pessoa e a matriz institucional.

A realização pelo negativo e criatividade pelo negativo referem-se às transformações que ocorrem na matriz grupanalítica por ação do padrão grupanalítico e pelas forças criativas que existem na matriz, não só relativamente a fenómenos de resistência e outros similares, como também através da possibilidade de se operar uma criatividade positiva pela transformação dos afetos e das cognições. A elaboração do negativo no grupo poderá assim permitira aquisição do que Cortesão designou por equilíbrio estético.

O conceito de matriz grupanalítica foi desenvolvido por Cortesão a partir do conceito de matriz de grupo de Foulkes e foi definido da seguinte forma:

A matriz grupanalítica é a rede específica de comunicação, relação e elaboração, a qual, pela integração do padrão grupanalítico, fomenta a evolução do processo grupanalítico adentro das dimensões teóricas e técnicas que o enformam. (Cortesão, 1989)

As dimensões teóricas referem-se sobretudo à metapsicologia e teoria das relações de objeto e as dimensões técnicas à matriz, padrão e níveis de experiência e de interpretação.

Esta definição de matriz grupanalítica é por si agregadora de outros conceitos nucleares tais como os de padrão e processo grupanalíticos, definidos, por sua vez, do seguinte modo:

O padrão grupanalítico consiste na natureza de atitudes específicas que o grupanalista transmite e sustém na matriz grupanalítica, com uma função interpretativa, que fomenta e desenvolve o processo grupanalítico. A elaboração terapêutica daqui resultante favorece o propósito de induzir a significação e diferenciação do Self individual. (Cortesão, 1989)

Processo grupanalítico é o modo pelo qual as várias dimensões teóricas e técnicas – que contribuem para dar corpo e forma à terapia grupanalítica – são estruturadas, organizadas e desempenham uma função. (Cortesão, 1989)

Cortesão (1989) refere que o padrão grupanalítico tem três dimensões que o caracterizam, associadas ao grupanalista: a sua natureza (personalidade, treino analítico pessoal, ser um transmissor) a função (intervenções e interpretações) e o propósito (indução e manutenção do processo grupanalítico visando a elaboração terapêutica). Estas dimensões conferem ao grupanalista um papel fundamental no decorrer do próprio processo grupanalítico, tratando-se o padrão de um conceito central na grupanálise portuguesa.

Poder-se-á então dizer que padrão grupanalítico vai sendo integrado como resultado da identificação com a função grupanalítica do grupanalista (Neto,1999).

A dinâmica grupanalítica é marcada por movimentos construtivos e destrutivos na matriz grupal. Relativamente aos aspetos destrutivos também o conceito de padrão grupanalítico torna-se relevante uma vez que só um padrão bem definido e assimilado pelos membros do grupo irá permitir a sustentação de um processo grupanalítico em que o grupo não caminhe para a desagregação ou aniquilamento.

Quanto ao conceito de matriz vários autores portugueses têm-se referido à sua importância destacando, por exemplo, as transações emocionais que ocorrem na sua dinâmica e a matriz como resultado da interação entre a rede pragmática atual e o conjunto das matrizes inter-relacionais internas ativadas pela regressão (Dinis, 1994, 2000) do grupo, a matriz como uma microcultura do grupo (Silva, 1971), a importância das várias dimensões da identificação projetiva que surgem no funcionamento da matriz grupanalítica (Aucíndio da Silva, 2012) e também a matriz na sua vertente interna ao sujeito (Leal, 1968).

Em relação a esta última, é de referir o conceito de matriz relacional interna de Rita Leal (Leal, 1968, 1968/1994, 1997). Esta autora considera que o sujeito vai organizando esta matriz interna a partir das múltiplas vivências relacionais, desde a relação primária com a mãe até à vivência nos diversos grupos. Já em 1968, Rita Leal referia que os grupanalistas entendem que as experiências do sujeito estão localizadas numa complexa rede de relações, que se pode designar por rede interna interpessoal ou matriz pessoal de grupo, ou matriz de relacionamento individual (Leal, 1968/1994). Associa este conceito de matriz relacional interna ao fenómeno do espelho.

O grupo grupanalítico proporcionará um contexto privilegiado para a encenação desta matriz, ativada pela regressão de cada um dos analisandos. Isto permitirá então que os indivíduos possam transformar a sua matriz relacional interna através da relação analítica desenvolvida na matriz grupal.

Um dos aspetos centrais preconizados pela Escola Portuguesa de Grupanálise, e inerente ao processo grupanalítico, é o objetivo de instalação e elaboração da neurose de transferência grupal de cada elemento do grupo, que ocorre por ação progressiva do padrão grupanalítico.

Neste sentido e como já foi referido, o grupanalista faz intervenções e interpretações de acordo com o contexto e o momento do grupo e dos seus membros, podendo estas serem dirigidas para o grupo como um todo, para uma parte do grupo ou para cada sujeito. A dinâmica relacional e interpretativa que se estabelece na matriz grupanalítica permitirá a perlaboração ou working through dos membros do grupo. Trata-se da elaboração pessoal que vai ocorrendo com o trabalho grupanalítico, lentamente mas de forma contínua, e que atua nas dimensões de constância e tempo.

Foram conceptualizados por Cortesão os seguintes níveis de experiência e de interpretação no grupo:

Experiência subjectiva individual
Experiência subjectiva múltipla
Comunicação associativa
Interpretação genético-evolutiva
Interpretação desenvolutiva
Interpretação de significação
Interpretação de criatividade
Interpretação na transferência
Interpretação comutativa

A interpretação é a técnica que permite traduzir para novas e mais diferenciadas formas de comunicação e organização psicológica aquilo que é comunicado no grupo nas suas diferentes vertentes. Cortesão (1989) refere que o termo interpretar integra dois sentidos dinâmicos e duas estruturas: é ativo quando introduz novos significados mais diferenciados face à comunicação anterior e é passivo quando o recetor atribui um significado à interpretação que não altera a proposição anterior ou quando o recetor não a compreende, ou eventualmente logo, ou ainda quando a proposição anterior não é entendida no seu contexto mas vai despoletar pensamentos e afetos, vários no sujeito.

Para Ferreira (2004) a teoria da comunicação e os conceitos de matriz, padrão e matriz relacional interna, assim como as conceções da Gestalt, nomeadamente de figura-fundo, são as que permitem melhor explicar o processo grupanalítico e assim contribuir para uma possível formulação de uma metateoria grupanalítica.

Os princípios da grupanálise têm sido aplicados a outros contextos terapêuticos tais como a intervenção em famílias, nomeadamente terapia multifamiliar, e Organizações.

As pontes que se estabelecem entre a grupanálise e outras vertentes do conhecimento científico, como por exemplo as neurociências, assim como uma investigação permanente nesta área, são condições indispensáveis para o desenvolvimento da teoria e técnica grupanalítica.